LÚCIA | e o eclipse-fora-de-horas

Lúcia tinha um olhar especial. No mar do azul dos seus olhos, havia uma cadência. “Tem uma paranóiazinha”, dizia o pai, com a cabeça enfiada dentro do carro que tentava há horas consertar. Quando a tarde caía, a menina, ansiosa, esperava que os trabalhos na oficina acabassem. Gostava daquele seu momento sozinha, quando todos saíam, para ficar a apreciar todas e cada uma daqueles milhares de peças que decoravam a oficina. “É a única que liga alguma coisa a isto. E já sabe muitas coisas!”, dizia Rogério.

Uma oficina e uma sucata, crianças e diversos animais numa casinha, e um perfeito cenário para um registo que facilmente se confundiria, para quem o visse no futuro, com um pré-25 de Abril. Uma espécie de Portugal distante, embora tão próximo.

Corria um fim de tarde invernoso mas solarengo, quando Lúcia e os seus irmãos brincavam como habitual, ao ar livre, com tudo o que pudesse servir para tal. Desde esqueletos de motas, a tanques de máquinas de lavar roupa, gansos, ou as ferramentas da oficina do pai. Rogério, mecânico há trinta anos, nunca havia tirado a carta de condução.

Em Lagameças, um povoado no concelho de Palmela, num pequeno baldio encontramos algumas casas como a de Rogério. Casas simples, construções precárias mas não provisórias, onde avós, pais e netos coabitam. Rapidamente conseguimos perceber os laços de familiaridade, entre os quais se adivinham casos de consanguinidade. E a pastora que é prima da avó, ambas Custódias.

Todos andam na escola. Apenas Lúcia teve que sair, pois já tinha 18 anos e, segundo conta, com essa idade não podia lá continuar. Fazia cinco meses desde que deixara a escola.

Ao perceberem o quanto a menina andava triste, a expressão que fazia quando primos e irmãos saiam de manhã para a escola e ela ficava, e a forma como passou a deambular por ali, a família notou que Lúcia havia mudado. O seu sorriso inocente e sincero esbateu-se, o isolamento aumentou, e a falta de convívio com os mais novos fechava ainda mais a sua realidade.

Rogério observa-a com compaixão através da janela da sua oficina. Foi então que, em conversa com um dos seus clientes, teve conhecimento que no fim da Estrada de Lagameças alguém estava a vender um cavalo. Branco. Rogério foi até lá.

“Lúcia, este é o Eclipse.”, presenteou-a o pai, naquela tarde que ela nunca haveria de esquecer. E o Eclipse, ironicamente, acabou com o obscurecimento de Lúcia, que ficou toda a noite a olhá-lo. Ofuscando-a, mesmo que fora de horas.

“O Eclipse é da gente toda. Só um bocadinho mais meu.”, passou a dizer.

© 2018 Joana Bom

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EUSKAL HERRIA | ON THE ROAD

A ideia de uma viagem ao País Basco começa a desenhar-se no fim de Julho, e seria a minha segunda viagem de mota. Nos dias anteriores pensa-se no que é preciso levar, como organizar e compactar tudo. Duas malas laterais, uma mala de depósito, um chouriço, tenda, colchões, fogão e panelas. Com a ajuda de esticadores e aranhas conseguimos amarrar tudo à mota. Estamos prontos para partir.

O ânimo e disposição inicial, marcam o primeiro trecho, de Setúbal  a Salamanca. Primeira pernoita e o primeiro de muitos parques de campismos.

O País Basco, em euskara designado por Euskal Herria, localiza-se a Norte da Espanha e faz fronteira com a França, bem próximo dos Pirinéus. Biscaia, Alava, Guipúzcoa, Navarra, Labourd, Baixa Navarra, e Soule, as últimas três já na França, compõem as sete regiões que os bascos denominam de Zazpiak Bat, que significaria “As Sete [são] Uma”.

De Salamanca seguimos então para o ponto mais distante que marcaria  a nossa viagem, San Sebastián, ou como dizem os Bascos, Donostia. Lugar bonito, rodeado por mar e serras, que aparenta uma boa organização urbana, assim como um alto nível de vida. Conversa-se sobre o facto da região ser uma das mais industrializadas do país. Imigrantes, particularmente oriundos de países hispânicos, conseguem avistar-se entre os pintxos, no diversos restaurantes, e o turismo sente-se na cidade.

Uma rua no centro de Donistia, vibra com o frenesim dos bares independentistas. Graffiti e pichos expressam esta luta, num bairro onde a pressão sobre os movimentos tem levado ao encerramento de alguns destes bares. Com a chegada da Semana Grande, semana de festas e de grande afluência à cidade, chega também a oportunidade de denunciar os presos políticos que continuam carcerados longe da sua zona de residência, e o bairro enche-se de faixas onde as suas caras estão desenhadas, com o objectivo de sensibilizar aqueles que agora chegam.

A viagem segue ao longo da região de Guipúzcoa até Biscaia, com paragem em Bilbau. Uma viagem banhada por um mar infindável, numa estrada que sobe e desce montanhas, onde os pensamentos se emaranham entre curvas e contra-curvas, e o cheiro das árvores entra pelo mesmo capacete de onde sai um som que parece perfeitamente consonante. Cohen musica a viagem ao longo desta costa, acrescentando à imensidão da paisagem uma sensação tão romântica quanto melancólica.

Assim, entramos nos Picos de Europa, e a sua beleza impera. Apaixono-me pela paisagem talvez com a mesma intensidade de Zeus, e aí disparo para todos os lados que a velocidade da mota me permite, tentando enquadrar lembranças que parecem tão aguçadas quanto aquelas montanhas. Cangas de Onís haveria de ser a última pernoita do outro lado da fronteira.

Com a distância aparentemente a encurtar, a proximidade com o Gerês trouxe um agradável desvio, e com ele o Sistelo. Entrar em Portugal, a familiaridade das cores e das paisagens traz um conforto particular de um assento que parecia custoso.

Nestes pequenos povoados do interior do país sente-se o êxodo. Populações envelhecidas, pouco movimento, e muitos estores corridos, que anunciam casas de famílias que aqui não moram. Contudo, há três semanas em Agosto em que estas aldeias se enchem de emigrantes. A maioria vive agora em França, mas insiste em ligar os filhos à terra. Fazem-se as festas, as gerações convivem e as praças voltam a encher-se de gente.

Assim se volta a montar a tenda, em Melgaço. Vila bonita de ruas estreitas e casas de pedra, gente acolhedora e boas comidas. No dia seguinte, uma estrada estreita e pitoresca que cruza diversas aldeias da região, conduz-nos ao Sistelo, uma pequena aldeia com poucos habitantes, que vivem essencialmente da agricultura e do pastoreio. Entre eles, encontramos Mariana. Caminha com Fidalga, uma vaca não tão simpática. Ou Emília que, no fim da tarde, sobe a pequena ladeira da aldeia, num ombro a foice, e na mão a enxada.

O fim aproxima-se, os quilómetros por fazer, e a conversa sobre que estrada seguir, que trajecto fazer, traz uma nova sugestão. Percorrer parte deste percurso final ao lado do rio Douro, trouxe novas paisagens e, com elas, novas cores. A caminho, uma paragem em Pitões da Júnias, uma das mais altas aldeias de Portugal. Entre os seus 161 habitantes, cruzamo-nos com pessoas simpáticas que exibem, com orgulho, os ovos caseiros que carregam, que nos indicam com simpatia possibilidades onde almoçar, que nos conduzem ao forno comunitário e nos apresentam mulheres que ali preparam as conhecidas bicas de carne.

Seguimos caminho, as vinhas aparecem, e a última imagem que fica gravada é o reflexo que agora se desenha na vidraça do capacete, o verde e o azul resplandecente do Alto Douro Vinhateiro.

© 2018 Joana Bom

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STREET PHOTOGRAPHY

© Joana Bom

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COVA DA MOURA | FESTIVAL 2015

KOVA M FESTIVAL

Bairro do Alto da Cova da Moura, Damaia/Amadora

© 2015 Joana Bom

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IPHONEPHOTO

© Joana Bom

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REFUGIADOS | DA GRÉCIA À MACEDÓNIA

Com a recente crise migratória, assistiu-se paralelamente ao fortalecimento da xenofobia no velho continente. Desta relação surge a necessidade de descontruir esse preconceito, e acolher estas pessoas oriundas de zonas de conflito torna-se imperativo. Com a máquina fotográfica como instrumento, iniciei um trabalho documental sobre os refugiados e acompanhei parte do seu percurso, entre a Grécia e a Macedônia.

Comecei o meu trabalho em Atenas, tendo acompanhado a chegada de diversos barcos ao porto de Pireaus, que traziam as pessoas que tinham feito recentemente a travessia marítima entre a Turquia e as ilhas gregas, em particular para a ilha de Lesbos. Frequentei também, ao longo de duas semanas, a praça Vitória, na zona centro de Atenas, ponto de encontro onde se estabelecem os refugiados esperando prosseguir viagem até à próxima fronteira. Muitas vezes, a Macedônia configura-se com uma forte possibilidade para quem quer seguir a travessia, e assim seguimos no comboio nocturno para o Norte da Grécia, e de seguida para Gevgeliza, primeira cidade fronteiriça na Macedônia. Aí tive a oportunidade de visitar um campo de refugiados, que se localiza ao longo da linha de comboio, facilitando o acesso à próxima fronteira, a Sérvia.

Através do trabalho fotográfico, tentei documentar o afluxo de pessoas que a cada hora se faz chegar, e que configura a urgência de uma resposta concreta e construtiva. Um cenário de desgate e violência acompanha estas pessoas, entre as quais muitas crianças. Este trabalho pretende contribuir para alertar sobre a necessidade de uma solução imediata e positiva, ao abrigo do estatuto de refugiados, assinado pela União Europeia; promover a reflexão profunda em torno dos interesses económicos e participação externa das grandes potências mundiais nestes países de origem, nomeadamente a Síria, Afeganistão e Iraque; e, por fim, promover uma consequente mudança de mentalidades, comummente promovidas pelos meios de comunicação, em torno das culturas dos países árabes.

 

© 2015 Joana Bom

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MARROCOS | ON THE ROAD

Apesar de uma viagem ao estilo motard significar muitos quilómetros em cima da mota e poucos no chão, não sendo certamente o tipo de viagem que mais possibilitará um contacto próximo com as populações e seus costumes, ela permite-nos, por outro lado, uma observação distanciada e muitas horas de introspecção e reflexão, assim como um deleite com as cores das paisagens, as etnias e as vestes, as casas e os campos.

De Portugal a Tarifa, onde já se avista África quase tão próximo como Almada, e posteriormente de Tarifa a Tânger, em pouco mais de meia hora de barco se chega a África, se chega a Marrocos.

De mota vamos percorrendo as estradas, que insistem em cruzar as cidades. Ao lado, transeuntes, bicicletas, mercados, montanhas e desertos. Com um grande número de turistas, Marrocos tem boas estradas e paisagens admiráveis. Desde as montanhas do Atlas às do Rife, até às cores do Saara em contraste com o oásis de Erfoud, pode desfrutar-se de belezas incríveis já bastante conhecidas entre o meio turístico. Algumas cidades estão tomadas por este público e correspondente comércio para ele direccionado, facto que não parece reverter-se para as comunidades locais, que permanecem pobres, com necessidades básicas por suprir, nomeadamente médicas e alimentares. Um quarto por noite num dos aclamados rhiads pode facilmente custar um salário mínimo do país.

Nos mercados vende-se de tudo, e as medinas, como a de Fez, deixam perceber como na cidade velha se vive do comércio. Ovos, pão, tapetes, bijuteria, carne e especiarias, em meio a muitos restaurantes e barbeiros. Os burros, ainda o principal meio de transporte, carregam as mercadorias pelas ruas estreitas.

No deserto, as tonalidades mudam. As casas pintadas com tinta de terra confundem-se com a paisagem, os tuaregues fixam-se na beira das estradas, os olhos mudam de cor, e o oásis aparece.

As matrículas europeias são uma constante por aqui, jipes, caravanas e motos. As crianças acorrem ao som da moto. Pedem dirahns e umas aceleradelas para ouvir o som dos motores. Entre os clientes dos restaurantes não se encontram locais. Por outro lado, o Rei Maomé VI faz-se sempre presente. Sendo Marrocos uma monarquia, a figura suprema do Rei faz-se obrigatória em qualquer estabelecimento comercial, estando sempre representada através de uma fotografia ou de uma pintura da entidade.

Marrocos é um lugar curioso. As mulheres com as suas vestes coloridas, tecidos que esvoaçam. Os cantos escondidos das ruas estreitas, por onde alguém se perde de vista na penumbra dos tapetes pendurados. O calor que instala suas sombras, e explicita os seus contrastes.

Apesar das diferenças culturais, a História permite alguns paralelismos para perceber influências mútuas. Por isso, Marrocos é não só uma introdução ao mundo muçulmano e a África, como à nossa própria História deste lado de cá do Estreito de Gibraltar.

 

© 2017 Joana Bom

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