EUSKAL HERRIA | ON THE ROAD

A ideia de uma viagem ao País Basco começa a desenhar-se no fim de Julho, e seria a minha segunda viagem de mota. Nos dias anteriores pensa-se no que é preciso levar, como organizar e compactar tudo. Duas malas laterais, uma mala de depósito, um chouriço, tenda, colchões, fogão e panelas. Com a ajuda de esticadores e aranhas conseguimos amarrar tudo à mota. Estamos prontos para partir.

O ânimo e disposição inicial, marcam o primeiro trecho, de Setúbal  a Salamanca. Primeira pernoita e o primeiro de muitos parques de campismos.

O País Basco, em euskara designado por Euskal Herria, localiza-se a Norte da Espanha e faz fronteira com a França, bem próximo dos Pirinéus. Biscaia, Alava, Guipúzcoa, Navarra, Labourd, Baixa Navarra, e Soule, as últimas três já na França, compõem as sete regiões que os bascos denominam de Zazpiak Bat, que significaria “As Sete [são] Uma”.

De Salamanca seguimos então para o ponto mais distante que marcaria  a nossa viagem, San Sebastián, ou como dizem os Bascos, Donostia. Lugar bonito, rodeado por mar e serras, que aparenta uma boa organização urbana, assim como um alto nível de vida. Conversa-se sobre o facto da região ser uma das mais industrializadas do país. Imigrantes, particularmente oriundos de países hispânicos, conseguem avistar-se entre os pintxos, no diversos restaurantes, e o turismo sente-se na cidade.

Uma rua no centro de Donistia, vibra com o frenesim dos bares independentistas. Graffiti e pichos expressam esta luta, num bairro onde a pressão sobre os movimentos tem levado ao encerramento de alguns destes bares. Com a chegada da Semana Grande, semana de festas e de grande afluência à cidade, chega também a oportunidade de denunciar os presos políticos que continuam carcerados longe da sua zona de residência, e o bairro enche-se de faixas onde as suas caras estão desenhadas, com o objectivo de sensibilizar aqueles que agora chegam.

A viagem segue ao longo da região de Guipúzcoa até Biscaia, com paragem em Bilbau. Uma viagem banhada por um mar infindável, numa estrada que sobe e desce montanhas, onde os pensamentos se emaranham entre curvas e contra-curvas, e o cheiro das árvores entra pelo mesmo capacete de onde sai um som que parece perfeitamente consonante. Cohen musica a viagem ao longo desta costa, acrescentando à imensidão da paisagem uma sensação tão romântica quanto melancólica.

Assim, entramos nos Picos de Europa, e a sua beleza impera. Apaixono-me pela paisagem talvez com a mesma intensidade de Zeus, e aí disparo para todos os lados que a velocidade da mota me permite, tentando enquadrar lembranças que parecem tão aguçadas quanto aquelas montanhas. Cangas de Onís haveria de ser a última pernoita do outro lado da fronteira.

Com a distância aparentemente a encurtar, a proximidade com o Gerês trouxe um agradável desvio, e com ele o Sistelo. Entrar em Portugal, a familiaridade das cores e das paisagens traz um conforto particular de um assento que parecia custoso.

Nestes pequenos povoados do interior do país sente-se o êxodo. Populações envelhecidas, pouco movimento, e muitos estores corridos, que anunciam casas de famílias que aqui não moram. Contudo, há três semanas em Agosto em que estas aldeias se enchem de emigrantes. A maioria vive agora em França, mas insiste em ligar os filhos à terra. Fazem-se as festas, as gerações convivem e as praças voltam a encher-se de gente.

Assim se volta a montar a tenda, em Melgaço. Vila bonita de ruas estreitas e casas de pedra, gente acolhedora e boas comidas. No dia seguinte, uma estrada estreita e pitoresca que cruza diversas aldeias da região, conduz-nos ao Sistelo, uma pequena aldeia com poucos habitantes, que vivem essencialmente da agricultura e do pastoreio. Entre eles, encontramos Mariana. Caminha com Fidalga, uma vaca não tão simpática. Ou Emília que, no fim da tarde, sobe a pequena ladeira da aldeia, num ombro a foice, e na mão a enxada.

O fim aproxima-se, os quilómetros por fazer, e a conversa sobre que estrada seguir, que trajecto fazer, traz uma nova sugestão. Percorrer parte deste percurso final ao lado do rio Douro, trouxe novas paisagens e, com elas, novas cores. A caminho, uma paragem em Pitões da Júnias, uma das mais altas aldeias de Portugal. Entre os seus 161 habitantes, cruzamo-nos com pessoas simpáticas que exibem, com orgulho, os ovos caseiros que carregam, que nos indicam com simpatia possibilidades onde almoçar, que nos conduzem ao forno comunitário e nos apresentam mulheres que ali preparam as conhecidas bicas de carne.

Seguimos caminho, as vinhas aparecem, e a última imagem que fica gravada é o reflexo que agora se desenha na vidraça do capacete, o verde e o azul resplandecente do Alto Douro Vinhateiro.

© 2018 Joana Bom

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STREET PHOTOGRAPHY

© Joana Bom

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COVA DA MOURA | FESTIVAL 2015

KOVA M FESTIVAL

Bairro do Alto da Cova da Moura, Damaia/Amadora

© 2015 Joana Bom

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IPHONEPHOTO

© Joana Bom

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REFUGIADOS | DA GRÉCIA À MACEDÓNIA

Com a recente crise migratória, assistiu-se paralelamente ao fortalecimento da xenofobia no velho continente. Desta relação surge a necessidade de descontruir esse preconceito, e acolher estas pessoas oriundas de zonas de conflito torna-se imperativo. Com a máquina fotográfica como instrumento, iniciei um trabalho documental sobre os refugiados e acompanhei parte do seu percurso, entre a Grécia e a Macedônia.

Comecei o meu trabalho em Atenas, tendo acompanhado a chegada de diversos barcos ao porto de Pireaus, que traziam as pessoas que tinham feito recentemente a travessia marítima entre a Turquia e as ilhas gregas, em particular para a ilha de Lesbos. Frequentei também, ao longo de duas semanas, a praça Vitória, na zona centro de Atenas, ponto de encontro onde se estabelecem os refugiados esperando prosseguir viagem até à próxima fronteira. Muitas vezes, a Macedônia configura-se com uma forte possibilidade para quem quer seguir a travessia, e assim seguimos no comboio nocturno para o Norte da Grécia, e de seguida para Gevgeliza, primeira cidade fronteiriça na Macedônia. Aí tive a oportunidade de visitar um campo de refugiados, que se localiza ao longo da linha de comboio, facilitando o acesso à próxima fronteira, a Sérvia.

Através do trabalho fotográfico, tentei documentar o afluxo de pessoas que a cada hora se faz chegar, e que configura a urgência de uma resposta concreta e construtiva. Um cenário de desgate e violência acompanha estas pessoas, entre as quais muitas crianças. Este trabalho pretende contribuir para alertar sobre a necessidade de uma solução imediata e positiva, ao abrigo do estatuto de refugiados, assinado pela União Europeia; promover a reflexão profunda em torno dos interesses económicos e participação externa das grandes potências mundiais nestes países de origem, nomeadamente a Síria, Afeganistão e Iraque; e, por fim, promover uma consequente mudança de mentalidades, comummente promovidas pelos meios de comunicação, em torno das culturas dos países árabes.

 

© 2015 Joana Bom

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MARROCOS | ON THE ROAD

Apesar de uma viagem ao estilo motard significar muitos quilómetros em cima da mota e poucos no chão, não sendo certamente o tipo de viagem que mais possibilitará um contacto próximo com as populações e seus costumes, ela permite-nos, por outro lado, uma observação distanciada e muitas horas de introspecção e reflexão, assim como um deleite com as cores das paisagens, as etnias e as vestes, as casas e os campos.

De Portugal a Tarifa, onde já se avista África quase tão próximo como Almada, e posteriormente de Tarifa a Tânger, em pouco mais de meia hora de barco se chega a África, se chega a Marrocos.

De mota vamos percorrendo as estradas, que insistem em cruzar as cidades. Ao lado, transeuntes, bicicletas, mercados, montanhas e desertos. Com um grande número de turistas, Marrocos tem boas estradas e paisagens admiráveis. Desde as montanhas do Atlas às do Rife, até às cores do Saara em contraste com o oásis de Erfoud, pode desfrutar-se de belezas incríveis já bastante conhecidas entre o meio turístico. Algumas cidades estão tomadas por este público e correspondente comércio para ele direccionado, facto que não parece reverter-se para as comunidades locais, que permanecem pobres, com necessidades básicas por suprir, nomeadamente médicas e alimentares. Um quarto por noite num dos aclamados rhiads pode facilmente custar um salário mínimo do país.

Nos mercados vende-se de tudo, e as medinas, como a de Fez, deixam perceber como na cidade velha se vive do comércio. Ovos, pão, tapetes, bijuteria, carne e especiarias, em meio a muitos restaurantes e barbeiros. Os burros, ainda o principal meio de transporte, carregam as mercadorias pelas ruas estreitas.

No deserto, as tonalidades mudam. As casas pintadas com tinta de terra confundem-se com a paisagem, os tuaregues fixam-se na beira das estradas, os olhos mudam de cor, e o oásis aparece.

As matrículas europeias são uma constante por aqui, jipes, caravanas e motos. As crianças acorrem ao som da moto. Pedem dirahns e umas aceleradelas para ouvir o som dos motores. Entre os clientes dos restaurantes não se encontram locais. Por outro lado, o Rei Maomé VI faz-se sempre presente. Sendo Marrocos uma monarquia, a figura suprema do Rei faz-se obrigatória em qualquer estabelecimento comercial, estando sempre representada através de uma fotografia ou de uma pintura da entidade.

Marrocos é um lugar curioso. As mulheres com as suas vestes coloridas, tecidos que esvoaçam. Os cantos escondidos das ruas estreitas, por onde alguém se perde de vista na penumbra dos tapetes pendurados. O calor que instala suas sombras, e explicita os seus contrastes.

Apesar das diferenças culturais, a História permite alguns paralelismos para perceber influências mútuas. Por isso, Marrocos é não só uma introdução ao mundo muçulmano e a África, como à nossa própria História deste lado de cá do Estreito de Gibraltar.

 

© 2017 Joana Bom

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